LUGARES PAISAGEM: A FOTOGRAFIA DA FLANERIE

Terça, 03 de junho de 2014
Dos jardins impressionistas de Monet, até a Nova York do hiper-realista Hooper, paisagens fazem e fizeram parte do imaginário de culturas distintas e, estão hoje, initerruptamente em meio ao nosso cotidiano. As cidades propiciam-nos infinitas delas, em lugares que são somente paisagem para muitos que não podem estar ali, por distância, medo, desconhecimento, a barreira de um idioma ou a dificuldade de se chegar. Desta maneira, ‘lugares paisagem’ existem e existiram aos montes e, sempre, ao longo da história.
Dou graças à existência de fotógrafos que cumprem a missão de nos trazer paisagens, aquelas em que eu ou você não poderíamos estar. Em São Paulo, por exemplo, um turbilhão de informações imagéticas tomam nossos olhos a cada instante e em todos os lugares há uma paisagem distinta. No entanto, para se chegar a elas nos deparamos com a barreira da aproximação, aquela que torna possível o instante e que nos possibilita a contemplação. Como conseguir instantes para observar paisagens emaranhadas cotidianamente em meio a trânsito, multidão, violência e caos? Dou graças novamente à existência de fotógrafos e artistas que chegam lá, até as paisagens e que, de alguma maneira, nos levam a elas.



Conheci o trabalho do fotógrafo Ricardo Ramos a partir de uma das séries que ele havia feito em Berlim e, só depois, fui apresentada ao que ele havia produzido em São Paulo. Seu trabalho mescla desde registros captados espontaneamente de pessoas nas ruas de cidades distintas - de Quito à Moscou, até a documentação da arquitetura modernista perdida nos centros das grandes cidades.





Sempre paisagens vindas da urbe. Ricardo Ramos como um flaneur busca recriar, por meio das imagens que registra, um mundo particular escondido em algum canto de cidade, como um bar peculiar em Santiago do Chile, o bairro do Brooklyn, uma cidade andina no Equador ou Campos Elísios em São Paulo. Por meio de suas cidades podemos conhecer paisagens perdidas no nosso cotidiano e que, nem sempre, observamos. Recortes corriqueiros que se transformam em obra de arte com qualidades estéticas e plásticas, como nas imagens poéticas de uma paisagem de prédios abandonados, e de grande valor arquitetônico, perdidos em meio à confusão do centro de São Paulo, a beleza escondida em um punk no metrô, e, ainda, um mapeamento em recortes detalhados das obras de Artacho Jurado em imagens que não vemos nos livros, retiradas de uma cidade caótica e ofuscada pelo dia-a-dia.







Com um olhar especial sobre a arquitetura modernista paulistana, Ricardo Ramos vem registrando marcos urbanos importantes, como as obras de Vila Nova Artigas, Álvaro Vital Brazil, Rino Levi, Carlos Bratke e Gregori Wachavchik. O registro é feito por meio de recortes, o que destaca a riqueza dos detalhes plásticos das obras. O contexto em que os prédios se encontram também é destacado pelo fotógrafo, que nos alerta para o risco em que alguns deles se encontram.







Estes são apenas alguns dos cenários registrados pelo fotógrafo Ricardo Ramos e que priorizam cenas imprevisíveis, encontradas em sua flanerie. Imagens congeladas em fotografia e que expressam poesia perdida em um cotidiano submerso em pressa e imediatismo. Um tempo a parar e apenas olhar.



Para conhecer mais do trabalho do fotógrafo, basta visitar seu Flickr.

COMENTÁRIOS

Mauricio Cordeiro 05/06/2014 09h09

Tive a oportunidade de trabalhar com o Ricardo Ramos, na ocasião através do Mercado Financeiro. Parabéns pelas fotos e iniciativa, que de certa forma expressam momentos que muitas vezes passam por nós desapercebidos. Excelente qualidade...relatos fidedignos do nosso cotidiano e arquitetura que ora congelada percebemos quanta beleza a mesma expõe diariamente.

Cris Alcantara 05/06/2014 07h41

Obrigada, Crister! A ideia é continuar falando por aqui de gente talentosa!

Crister Macedo 03/06/2014 15h03

Cenários e paisagens urbanas encantadoras, um estilo de fotografia que devíamos ver mais sobre. Excelente matéria, a autora está de parabéns.

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