O SÉCULO DE HENRI CARTIER BRESSON

Facetas e influências do maior fotógrafo do século XX

Domingo, 12 de março de 2017
De fotógrafo surrealista a pioneiro do fotojornalismo, Henri Cartier Bresson foi principalmente um gênio da geometria e da composição. Sua genialidade aliada a um desejo constante de sempre estar onde a história acontecia, fizeram dele o “Olho do Século”. Apesar de ser um clichê, esse título atribuído ao fotógrafo não podia ser mais justo. Cartier Bresson, que viveu entre 1908 e 2004, esteve em alguns dos mais importantes momentos da história, percorreu todos os continentes, com sua Leica sempre em mãos, e registrou, não os fatos, mas a subjetividade dos pontos de vista em torno deles. Dez anos após sua morte, a Fundação que leva seu nome, fundada por ele mesmo pouco antes de falecer, organiza a exposição que traz 500 de suas obras ao Centro Georges Pompidou em Paris, e reúne o mais completo acervo já exibido das obras do fotógrafo. Além de fotografias, estão expostos desenhos, pinturas, objetos pessoais e vídeos de uma pequena passagem do artista pelo mundo do cinema.


Três meninos no lago Tanganyika, Libéria, 1930, de Martin Munkacsi.

Ao iniciar sua carreira como pintor, fortemente influenciado pelos surrealistas com quem convivia, o jovem artista já fazia alguns ensaios com sua primeira câmera Box Brownie, explorando a estética do surrealismo. Mas somente após conhecer o trabalho do húngaro Martin Munkacsi, nos anos 1930, foi que ele se dedicou inteiramente à arte da fotografia, e adquiriu sua icônica Leica. Ao ver, pela primeira vez, a foto “Três Meninos no Lado Tanganyika” de 1930, Bresson, com então 22 anos, se viu fascinado pela possibilidade infinita de compor cenários com elementos humanos em ações corriqueiras, e conta que saiu com sua máquina em mãos pelas ruas em busca de combinações de corpo, movimento e espaço. Seu prazer era então não prever o que iria acontecer, mas estar sempre pronto, e celebrava cada captura.


Place de l'Europe. Gare Saint Lazare. 1932. Paris. De Henri Cartier Bresson

Por essas capturas espontâneas, Cartier Bresson ficou conhecido como o mestre do “Instante preciso”. Porém, a estética perfeita da composição de suas fotos, da geometria meticulosamente calculada, contradiz a fugacidade dos instantes imprevistos capturados e pela força das emoções transmitida. Como se fora uma sequência de golpes de sorte. Mas não era nada além de técnica e muita disposição. De fato, a busca pela composição perfeita realmente era uma obsessão do artista, que por várias ocasiões se encantava primeiramente pela geometria do cenário, se posicionava, e aguardava, como um caçador, algum personagem que viesse a compor o quadro. Ele costumava dizer que a diferença entre uma fotografia boa e uma ruim é uma questão de milímetros. 


Ilha de Siphnos, Grécia, 1961, de Henri Cartier Bresson


The Var department. Hyères, 1932, de Henri Cartier Bresson

A exposição, dividida em três momentos, mistura as mais lendárias fotografias do artista a algumas inéditas e também desenhos, que dizem muito sobre a relação do artista com a imagem e a geometria. Apresentadas de forma cronológica, a primeira parte, que vai de 1926 a 1935, é marcada pela influência do surrealismo, o seu início na fotografia e suas grandes viagens através da Europa, México e Estados Unidos. O segundo período, que começa em 1936, quando ele volta dos Estados Unidos e termina em 1946 com uma nova partida para Nova York, é aquele do fotógrafo politicamente engajado. Em uma Europa entre guerras, que vivia a ascensão do nazismo, Cartier Bresson trabalhou para a imprensa comunista, foi ativista e chegou a ser preso por três anos. E o terceiro, que começa em 1946 e vai até os anos 70 quando o fotógrafo se aposentou do fotojornalismo, é aquele marcado pela criação da Agência Magnum, quando ele cobriu, à sua maneira, os mais importantes acontecimentos históricos.
A Agência Magnum foi um marco na história do fotojornalismo. Fundada em abril de 1947, por Henri-Cartier Bresson, Robert Capa, David Seymour e George Rodger, no intuito de unir forças para proteger os direitos autorais de suas fotos, a agencia passou a reunir os maiores talentos da fotografia, e propiciou, para cada um de seus membros, um período altamente produtivo na carreira. 


Madri, Espanha, 1933, de Henri Cartier Bresson


Harlem, New York, 1947, de Henri Cartier Bresson


Sevilha, Espanha, 1933, de Henri Cartier Bresson

A mostra tem sido extremamente bem recebida pelo público, pois ao contrário das exposições anteriores, ela não busca delimitar uma unidade na trajetória do artista. Partindo do princípio que Cartier Bresson teve vários momentos na carreira, ela os expõe um a um, e deixa livre ao espectador delinear essa unidade. Seja na estética, seja na presença da figura humana, comum a todas as fotografias, um fato inegável é que, como conjunto, sua obra, do início ao fim, retrata o século XX, as transformações incessantes, a evolução artística, social e política. O que se percebe em sua obra, e já nessas poucas fotos, que nós do Anual Design, com muita dificuldade, elegemos, é que, ao contrário de alguns outros mestres da fotografia, como Sebastião Salgado, por exemplo, que por muito tempo focou nas feridas da humanidade, Bresson comparecia a cidades devastadas para registrar, não a dor, mas reconstrução, superação, e vida que continua. 


Henri Cartier Bresson e sua Leica inseparável.

 

COMENTÁRIOS

Rita De Cassia De Carvalho 07/03/2017 23h45

Amei a matéria, conhecer a vida e obra de Henri Cartier Bresson é fundamental para quem quer ser fotógrafo, agradeço à esta equipe!

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