A TORRE EIFFEL RUSSA, A TORRE DE SHUKHOV, PODE DESAPARECER

Petição internacional quer salvar a torre que, mais do que um patrimônio local, é um marco da arquitetura mundial.

Terça, 06 de maio de 2014
Entregue às adversidades do tempo, um importante marco da arquitetura moderna e principalmente um dos maiores feitos da engenharia do século 20, a Torre Shukhov, em Moscou, está seriamente ameaçada. O Comitê Estatal Russo para Rádio e Televisão anunciou recentemente a intenção de desmontá-la devido à sua péssima condição. Mesmo não sendo aberta ao público, esta torre é sem dúvida um patrimônio para os habitantes de Moscou, e até da Rússia, mas, surpreendentemente, quem encabeça a petição para o restauro e salvamento da torre, juntamente com a Shukhov Tower Foundation, é ninguém menos que o ilustre arquiteto inglês, Norman Foster. 


Seguido de outros grandes arquitetos, professores e artistas do mundo todo, Foster sabe da importância desta torre, e da sua influência, tanto em suas obras quanto na história da arquitetura. Construída entre 1920 e 1922 por Vladimir Shukhov, a pedido de Lenin, para instalação de uma antena de Rádio e TV do governo soviético, a torre deveria ser uma resposta russa à Torre Eiffel. A obra saiu melhor (porém menor) que a encomenda. Lenin havia sugerido um projeto de 350 metros de altura, que orgulhosamente superasse os 325 da torre de Gustav Eiffel, mas em tempos difíceis do país, mesmo com uma inovadora e econômica estrutura metálica, por falta de matéria prima, Shukhov desenvolveu uma estrutura cônica de apenas 160 metros de altura, que serviu a contento à emissora de rádio e TV do governo, entre 1922 e 1960, quando foi desativada e esquecida.



Muito mais que um testemunho do construtivismo soviético e da arquitetura de vanguarda, por trás de sua aparente ingenuidade estrutural e seu perfil cônico simples, a torre esconde um complexo estudo de geometria. A torre de Moscou e outras estruturas de Shukhov são produtos de seus primeiros estudos sobre a união de duas técnicas nunca antes aplicadas à construção. A primeira é o uso da estrutura hiperboloide, onde linhas retas criam superfícies curvas, e a segunda, é amplamente conhecida hoje como Diagrid, ou grade diagonal, que consiste em estruturas triangulares com vigas diagonais de suporte. Ambas permitem a redução de uso de aço, a dispersão do peso, dispensam pilares e vigas internas, e são grandes conhecidas de Norman Foster e dos demais signatários da petição. 


A primeira obra hiperboloide de grade diagonal do mundo, a Caixa da D’agua de Polibino, Rússia, 1896, de Vladimir Shukhov.

A obra de Vladimir Shukhov revolucionou a arquitetura, a engenharia e o design. A primeira técnica driblou a ditadura das retas, e a segunda, a gravidade. Foi a partir daí, com uso e abuso desses recursos, que vieram Le Corbusier, Eduardo Torroja, Oscar Niemeyer, Norman Foster (responsável pelo projeto do Campus da Apple, sobre o qual falamos aqui), Ieoh Ming Pei e a arquitetura moderna, com toda sua sinuosidade, ousadia e leveza. Exposto ou recoberto por concreto, o aço trançado deu firmeza e liberdade às curvas, e o efeito treliça da técnica permitiu que maravilhosas coberturas de vidro fosse elevadas, com leveza, segurança e requinte, e tem sido o recurso favorito quando se trata de integrar, com harmonia, a arquitetura moderna às imponentes construções históricas. 


A Hearst Tower em Nova Iorque, de Foster +Partners.


A Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer.


O Museu do Louvre e sua emblemática pirâmide, assinada por Ieoh Ming Pei, é um exemplo de harmonia em estilos.

Pelo pioneirismo da técnica e pela riquíssima contribuição de Shukhov à história das construções, é importante que sua torre seja mantida, restaurada e reconhecida como patrimônio arquitetônico mundial. 

Veja, no video abaixo, a exposição de Vladimir Shukov no Multimidia Art Museum, Moscow

COMENTÁRIOS

Seja o primeiro a comentar!

* Campos obrigatórios. Seu email não será divulgado.