((( Cinema com dança )))

O gesto como mistério ou um filme sobre o processo criativo da Quasar Cia de Dança.

Segunda, 02 de setembro de 2013
A dança é uma escrita do corpo. A transformação do gesto em algo imbuído de valores e significações se dá na relação estabelecida entre o corpo,  o movimento e a imagem abstrata que ele produz de si. O cinema, por sua vez,  é uma escrita dos corpos e das coisas, geralmente dos corpos e das coisas que se movem, já que no mundo a imobilidade é mais uma condição psicológica do homem que um elemento do universo, que tende na verdade sempre à mudança. Estamos no terreno do movimento, ele, que pressupõe o tempo. Assim apresento Corpo Aberto, um filme documentário que observa de perto o processo de criação de uma das mais expressivas companhias de dança contemporânea do Brasil, a Quasar Cia de Dança.



No filme, o coreógrafo Henrique Rodovalho vive o processo criativo de um novo espetáculo com os bailarinos e a Cia vive seu processo de produção e funcionamento cotidiano em Goiânia motivada pela estreia do novo trabalho no Teatro Alfa em São Paulo. Pela primeira vez uma equipe de cinema documenta essa duração. Do gesto como mistério à fabricação do corpo, da imagem ao movimento, a imagem-corpo, Corpo Aberto.
Quando o cinema filma a dança ele filma a vida. Entre a sedução do nascimento do gesto, momento em que o corpo se torna imagem abstrata ou pura ação afetiva e estética, o filme Corpo Aberto quer vasculhar o tempo. Investindo na duração e no acontecimento, o filme produz uma mise-en-scène especial para seus recortes: a dança é o corpo em movimento enquanto o cinema é a possibilidade de fixação do movimento como puro instante. Assim, o corpo se abre à câmera de forma poética, revelando a relação afetiva com o real que faz o documentário transitar entre o que se captura o que não se poder capturar, o que se deseja e o que se insere voluntariamente no filme. Mostrar e não mostrar. Quadro e fora de quadro. Procura. Mais do que o registro, entre os gestos possíveis na a presença da câmera quando ela filma a vida, a observação é um investimento na relação contínua, uma abertura, um devir.


Henrique Rodovalho e os bailarinos João Paulo Gross e Carolina Ribeiro vivem o processo criativo da coreografia "Boca" em ensaio para o espetáculo "Por 7 Vezes"

No filme toda a dinâmica de criação do novo espetáculo da Quasar, Por 7 Vezes, é documentada: o aparecimento do movimento coreográfico, a tradução desse movimento pelos corpos dos bailarinos a partir dos conceitos trabalhados por Henrique, passando pela contribuição dos bailarinos e seus repertórios e personalidade,  pela criação e montagem de cenários e figurinos, abordando a produção e o cotidiano da Quasar na realização do espetáculo, de todo o processo de montagem até sua estreia. 
Corpo Aberto é um filme sobre o trabalho, esfera da vida em que as fronteiras entre objetividades e subjetividades se organizam, abrindo fissuras no real, mas também se prestando a pura energia que move a vida contemporânea – vida produtiva – ação da própria sobrevivência dos corpos. Mostra-se o mundo do trabalho, no qual homens e mulheres investem sua energia, mais do que esfera de práticas objetivas como alcances de resultados e metas e mais do métodos específicos de fazer certas coisas.  Nesse caso, um trabalho diferente, o trabalho artístico: o universo dos processos criativos individuais e coletivos, solitários ou colaborativos, universo da expressão, da vontade e ao mesmo tempo do inconsciente.
Corpo Aberto é um filme de observação, um “direto”, ao modo de Fraçois Niney. Esses filmes  pretendem agarrar em imagens e sons sincrônicos, e graças a mobilidade da câmera, a vida ‘ao vivo’, no momento presente, no momento em que acontece, seguindo a expressão já reivindicada - exceto quanto ao som -  por Lumière e depois Vertov. O “direto” sintetiza uma busca do documentário moderno, a da relação imediata com o mundo, que é uma instabilidade necessariamente, e uma honestidade também.


João Paulo Gross e Carolina Ribeiro interpretam "Boca" em ensaio para o espetáculo "Por 7 Vezes"

Durante 8 semanas nossa equipe permanece dentro da Quasar filmando a partir dos estímulos de criação do espetáculo Por 7 Vezes. O dispositivo do filme é estruturado entre o máximo controle das situações filmadas e a abertura para o imponderável. Estamos sempre prontos para filmar e mantemos o recuo de nossa posição. Somos 3 no plano: eu-diretora, o fotógrafo e o som direto. Tentamos perceber o eixo de interação e seguir. Somos o simulacro, estamos ali para observar, apenas. Mas para observar bem é preciso ternura e ternura pressupõe ausência de julgamentos. Aquele que recua quer algo: no “direto” queremos ver melhor, escutar melhor, amar as coisas que filmamos. E amamos porque vivemos, estamos ali, câmera no ombro, homem à homem, dentro da situação, de frente para o Outro. Somos mais um e mais uma é a câmera. Mas sem naturalismos. Sabemos que filmar é colocar algo em cena. E se o plano é nosso a cena é do Outro.
Frederick Wiseman, um dos cineastas mais inventivos do cinema “direto” contemporâneo disse certa vez: “me interessa filmar o aspecto estrutural das coisas” e mostrou em 6 décadas de trabalho que Deus está mesmo nos detalhes. Corpo Aberto é um filme wisemaniano por princípio, de fato fortemente inspirado no trabalho desse norte-americano a respeito instituições modernas. A coincidência principal nesse caso é que Wiseman fez 3 filmes de dança nos últimos anos: Ballet (1995), La Dance (2009) e Crasy Horse (2011), o primeiro sobre o Ballet de Vancouver, o segundo sobre o Ballet de Ópera de Paris e o terceiro sobre a lendária casa de shows eróticos Parisiense de mesmo nome produzindo um espetáculo do coreógrafo Philippe Decouflé. Há nesses filmes importantes referências para  Corpo Aberto e um ensinamento: para acompanhar o processo criativo da Quasar Cia de Dança é preciso pensar os acontecimentos a serem filmados como experiências da dúvida e seus mistérios, dúvida do próprio acontecimento como abertura para a vida. Não há entrevistas, há a fala de homens e mulheres. Não há “fala para a câmera” ou “ação para a câmera”. Há ação.


Valeska Gonçalves interpreta "Olhos" em ensaio para o espetáculo "Por 7 Vezes"
Fotos: Vinicius Berger

A exatidão quase que equacional, a disciplina da emoção são perceptíveis ao se observar a dança contemporânea e sua criação. Essa observação que é o processo das filmagens de Corpo Aberto já está na sua reta final. As gravações avançam e em breve vamos acompanhar a estreia de um novo espetáculo da Quasar Cia de Dança no Teatro Alfa em São Paulo, dias 5 e 6 de outubro de 2013. Em seguida o filme vai pra sua pós-produção, montagem, finalização e etc, para então chegar ao público no segundo semestre de 2014. Corpo Aberto é uma produção da Barroca Filmes, da F64 Filmes e da Quasar Cia de Dança.
Convidamos nosso público a também fazer parte do processo de realização de Corpo Aberto. Lançamos uma campanha para arcar com os gastos da pós-produção do filme pelos recursos do Crowdfunding, forma de financiamento coletivo de projetos.  Sejam todos bem-vindos. Corpo Aberto.

Faça parte desse projeto acessando o link: http://catarse.me/pt/corpoaberto

Acompanhe o filme: https://www.facebook.com/corpoaberto e http://corpoaberto.tumblr.com

Veja abaixo o vídeo da campanha:



Agora, veja em primeira mão o teaser de Corpo Aberto:


 

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