ARTE-MASSA

A nova arquitetura urbana de Goiânia na visão crítica e bem humorada da publicitária Débora Dias .

Quarta, 10 de abril de 2013
A primeira vez que vi uma escultura vermelha, como se fosse uma chapa esmaltada, retorcida, achei bem interessante e até fiquei feliz, pois na grande maioria das construções aqui de Goiânia não se vê um objeto de arte enfeitando a entrada das construções, a grande maioria dos “enfeites” de prédios são somente de jardinagem, ou no máximo alguma cascata de água. Sempre achei isso ruim. Eu teria ficado ainda mais feliz se não tivesse visto mais 200 esculturas parecidas em outros 200 lugares diferentes.
Não sou jornalista, nem arquiteta, mas sou cidadã, moradora da cidade (mas exagerada, portanto, os 200 podem ser reduzidos a 100). Aquele objeto artístico vermelho que vi na porta do lindo prédio de um restaurante começou a me perseguir: eu o via em 90% das novas construções da cidade. Não é exagero agora: eu passei a ver esse objeto durante todo o meu trajeto pelo Setor Bueno, Marista e Serrinha, em variadas construções. Elas não são iguais, é bem verdade, elas se diferenciam um pouco umas da outras, umas são arredondadas, outras compridas, mas a lógica é uma só: são irmãs, em alguns casos irmãs gêmeas bivitelinas, vieram de uma mesma coleção, são provavelmente filhas dos mesmos pais, são todas chapas vermelhas retorcidas (outro exagero, temos algumas surgindo em outras cores). Elas ficam sempre em posições estratégicas, para morarem na nossa memória: dentro dos portões, sobre uma piscina decorativa, do lado de fora do portão, em diferentes posições, mas sempre presentes. Por aparecerem em todos os lugares, quando a gente menos espera, são as gêmeas assustadoras do Kubrick.



A gente passeando e de repente: Bú! Outra delas, e outra e outra e mais uma. No restaurante, no edifício empresarial, no edifício residencial. As construções onde esses objetos estão são bonitas, imponentes, que dão até um charme urbano à cidade, mas... lá está ela: provavelmente vermelhinha, retorcida, frustrando toda minha ânsia em ver obras artísticas espalhadas pelas cidade. Nesse momento a gente pensa em que ponto sutil um objeto deixa de ser artístico e passa a ser reprodução de massa (e em qual ponto ele passa a ser aterrorizante, ocupando nosso dia, nossas vistas, nossa memória da cidade). Eu pensei em algumas hipóteses, mas todas são tão varejistas que não se aproximam nem do bom gosto das construções em questão. O boom da arte goiana, pela qual eu ansiava estava se mostrando repetitivamente vermelha, e isso é o que incomoda mais: Poxa, vamos variar mais as cores, porque não? As que fugiram à regra do vermelho renovaram minhas esperanças! Mas predominam as vermelhas! Tive a curiosidade de descer em um desses prédios. Contornei a escultura, discretamente olhei para o chão, procurando uma nota, uma placa “Essas escultura, assim como todas as outras, são uma homenagem a ...” Mas não encontrei nada. Caso me encontrem por aí, em algum prédio, contornando a escultura da porta em busca de uma placa-explicativa e souberem me orientar vou ser super receptiva.  Se existir alguma explicação, como forma de fixação de marca, uma divulgação artística, uma campanha, alguma coisa que se relacione à popularidade dessas peças, por favor, podem me contar? Se for alguma exposição, ou qualquer outra “jogada” me expliquem. Enquanto isso sigo atenta olhando as artes arquitetônicas antigas dos prédios do centro, somente as que restaram não escondidas atrás dos outdoors.

COMENTÁRIOS

Jânio Alves Adorno 10/04/2013 20h14

Gostei tanto do texo quanto de sua sensibilidade. Apesar de precário o visual arquitetônico de nossa cidade a natureza esnoba beleza por aqui.

Diogo Luz 10/04/2013 15h43

É incrível a quantidade de olhares de massa atentos às cores do semáforo, ao trânsito caótico, à violência generalizada. Agora, para enxergar a arte (ou a possibilidade da arte) nos nossos portões e fachadas, apenas um olhar artístico. Parabéns pelo texto. E obrigado por deixar a nossa paisagem um pouco mais colorida (e linda).

Celene Lima 10/04/2013 13h21

Bom texto Débora! suas observações demonstram a singularidade das " almas nobres" que buscam o prazer estético em todas as formas de arte e crêem que elas são dotadas de uma significação especial para quem as observa! Parabéns.

Sil 10/04/2013 11h32

de fato existem tantos artistas e é muito difícil encontrar espaços para divulgar ou expor um trabalho. Os arquitetos poderiam sim atentar para esse produto e inseri-los em seus projetos valorizando os artistas e deixando que saiam do anonimato, a população acordaria pra esse filão e passaria a conviver com a arte.

Thiago Sousa Da Silva 10/04/2013 10h51

Essa arte é nova por aqui, como observado, temos quando muito projetos de jardinagem e uma cascatinha nas fachadas dos prédios, há também a novidade das fachadas 'blindex pra tudo'. As onipresentes placas vermelhas realmente intrigam, são tendência? É o mesmo arquiteto ou designer de interiores que está executando os projetos destes prédios? Ou estão à venda na Leroy Merlin? Com uma cidadã observadora como você desejo sorte para quem, em qualquer dos casos, está fazendo uso das vermelhinhas. Com essa visão crítica, criativa e histórica da identidade visual da cidade, acredito até que poderia se aventurar a contribuir de maneira profissional, e quem sabe sugerir cores melhores!

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