As cadeiras inéditas de Sergio Rodrigues .

Entrevista concedida por Sérgio Rodrigues a Jean Bergerot em 2010 ajuda a comprovar autoria das cadeiras do Cine Brasília

Terça, 17 de outubro de 2017
A paternidade das cadeiras do Cine Brasília foi descoberta! As cadeiras do tradicional cinema da capital federal, assinadas pelo designer Sérgio Rodrigues, que foram substituídas por novas peças em 2014, tiveram sua autenticidade confirmada. Em reportagem publicada pelo Correio Braziliense, a autoria das criações é comprovada por meio de duas entrevistas concedidas pelo artista, uma para o portal O Moveleiro e a outra, concedida a Jean Bergerot, publicada no livro 50 Anos de Arquitetura (Ed. Senac).



O livro, realizado numa parceria entre a Editora Senac, a Editora Anual e o CasaPark, conta a história de Brasília do ponto de vista arquitetônico, com mais de 45 projetos, com todos os verbetes relacionados a eles e ainda depoimentos de professores, historiadores e catedráticos no assunto.
O empresário Ivan Valença, nome à frente do Shopping CasaPark, foi o idealizador do projeto do livro. Na época, a publicação representou um grande marco, principalmente por abordar a arquitetura da capital por um novo prisma, tendo estrutura e estilo analisados com maior profundidade. A obra deixou sua marca ao retratar a evolução da arquitetura moderna no Brasil pelos prédios construídos em Brasília desde a sua fundação.

A entrevista a Bergerot serviu como um complemento à publicação, para associar a arquitetura de Brasília ao design, temas do livro. “Por coincidência eu era amigo do Sérgio Rodrigues, eu tinha acesso direto a ele. Então eu consegui muito rápido fazer essa entrevista”, relembra Jean Bergerot.
O editor ainda enfatiza que a seu ver um dos pontos mais interessantes da conversa foi a revelação de que o desenho da icônica Poltrona Oscar é anterior ao projeto do Palácio da Alvorada, em Brasília. Aqui vale ressaltar que a peça tem o arco da construção no seu layout e, até então, o que se sabia era que ela havia sido criada com inspiração no edifício. Ainda de acordo com Bergerot, em seus arquivos constam outra entrevista inédita concedida por Sérgio Rodrigues a ele que será divulgada em breve no portal Anual Design.





Confira na íntegra a entrevista, concedida em setembro de 2010:

Quando a nova capital foi concebida, uma onda de influência estética e cultural atravessou o nosso país infiltrando-se em vários seguimentos, influenciando as criações e imprimindo novos padrões estéticos e novos ares nacionalistas para muito além da arquitetura.

As novas e imensas construções que se desenhavam no grande pátio de obras, que seria um dia a capital brasileira, instigavam os profissionais do então incipiente mobiliário nacional a pensar em produtos que não somente pudessem preencher estes grandes vazios como também dialogar com o novo padrão estético que despontava.

Esta nova ordem determinou um padrão estético que influenciou, e influencia até hoje, o que se conhece como design nacional. Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e José Zanine lideraram este novo desafio de pensar em uma estética nacional para o mobiliário.

Com ideias e ideais completamente afinados com os gênios Lucio Costa e Oscar Niemeyer, Sergio Rodrigues despontou como referência nesta área, posto que ocupa até os dias atuais. Para conhecermos um pouco mais esta passagem e entendermos como a construção de Brasília influenciou o design de mobiliário brasileiro, Sergio Rodrigues nos concedeu uma entrevista exclusiva, na qual relata acontecimentos e detalhes desta época efervescente e criativa.

Jean Bergerot - Qual a influência da arquitetura de Brasília no mobiliário brasileiro?
Sérgio Rodrigues - Na época da construção de Brasília eu já estava criando meus móveis, movido pelo desejo de fazer algo compatível com a arquitetura brasileira, então já reconhecida e admirada em todo mundo, por isso não vejo no meu trabalho influência da arquitetura do Oscar Niemeyer. Algumas pessoas, quando criei a poltrona Oscar, disseram que havia me inspirado no Palácio da Alvorada, por um pequeno detalhe que se assemelha a uma coluna do Palácio, mas a poltrona foi criada em 1956 e o Alvorada, se não me engano, em 1958.
Eu não posso honestamente dizer que não tive influência de outros porque todos sofremos influências, mas realmente, nenhuma de minhas peças tem semelhança com o que se fazia na Europa naquela época.

Jean Bergerot - E o nome Oscar, veio depois que o senhor detectou essa coincidência?
Sérgio Rodrigues - Eu criei essa poltrona para a sede do Jockey Club Brasileiro, na Avenida Rio Branco, a pedido de sua diretoria, para uma sala de jogos, mas eles não aceitaram, e para minha decepção a devolveram com o argumento de que era muito moderna. Aborrecido, coloquei-a na vitrine de minha loja e em uma das visitas do Oscar(Niemeyer), que sempre passava por lá a procura de móveis para o Catetinho, mostrou-se interessado e comprou duas para sua filha que ia se casar. Fiquei entusiasmado e decidi batizá-la de Oscar em sua homenagem, do mesmo modo que homenageei Lucio Costa, dando seu nome a uma cadeira que ele elogiou dizendo: “essa é a primeira cadeira com uma maneira de execução moderna e como espírito tradicional brasileiro”.

Jean Bergerot - Dentro dos Ministérios, na parte administrativa de Brasília, o senhor colaborou com outros móveis sob medida?
Sérgio Rodrigues - Quando da inauguração dos Ministérios, recebi um convite do ministro Vladimir Murtinho e do arquiteto Olavo Redig de Campos que trabalhavam em parceria no Itamaraty, para criar uma mesa para o ministro porque as disponíveis eram mesas Luís XV e Luís XVI, de valor, porém, incompatíveis com a arquitetura do prédio. Fiz a mesa em jacarandá e foi muito apreciada. Foi encomendada outra igual, em Peroba, que deixei em minha loja, onde foi vista pelo embaixador Hugo Galtier, que acabara de comprar o Palácio Dória Pamphili para nele instalar a sede de nossa embaixada em Roma, e que ao examiná-la disse: “quem criou essa mesa vai comigo para Roma fazer os móveis para a nova embaixada”. Foi assim que, em 1960, passei vários meses em Roma, mas isso já é outra história.
Logo depois, o Ministro Horácio Lafer convidou-me para pensar e criar móveis que tivessem sintonia com a identidade brasileira e de estilo clássico. Por volta de 1966, a convite do Oscar e do ministro, fiz variações da mesa, chamei-a de Itamaraty para os ministros e fiz uma linha de móveis completa com poltronas, cadeiras e linha para recepção. Enfim, fiz todos os móveis do Ministério das Relações Exteriores e algumas peças, junto com outros arquitetos, para outros ambientes do Palácio.
Fiz também, a convite do Oscar(Niemeyer), as poltronas das três plateias do Teatro Nacional e do Cine Brasília. Um dia, da Itália, o Oscar telefonou pedindo para eu fazer o mobiliário da residência do Primeiro Ministro e eu, entusiasmado comecei a trabalhar, mas como não me deram mais nenhuma notícia, procurei informações e tive uma grande decepção ao constatar que os móveis já tinham sido comprados de outra pessoa em Brasília, certamente à revelia do Oscar.

Jean Bergerot - Qual a influência que o Sr. acredita que deixou para o mobiliário brasileiro? As linhas simplificadas, a opção pelo uso da madeira?
Sérgio Rodrigues - Tenho vários sucessores nessa nova geração que estão, com seu talento, abrindo portas para o reconhecimento do design brasileiro no mundo. Cada um desses jovens tem no seu trabalho características e identidade marcantes e de mim só herdaram o entusiasmo em fazer alguma coisa brasileira, com caráter brasileiro. Quando conheci os trabalhos de Carlos Motta, por exemplo, fiquei impressionado por serem diferentes dos móveis clássicos, terem linhas simplificadas, linhas mais puras, sem sofrer influências de modismos e tendências.


 

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