Arquitetura do abandono revelada por meio da arte

A obra de Gordon Matta-Clark apresentada pela arquiteta Julia Abreu

Quinta, 27 de julho de 2017
Gordon Matta-Clark (1943- 1978) arquiteto e artista americano, conhecido por usar a arte como “crítica política a uma organização capitalista da prática arquitetônica” no final dos anos sessenta. O quadro de desindustrialização mostra suas conseqüências à dinâmica das cidades, que sobreviveram a um longo período de políticas urbanas de exclusão, demolições e pressão imobiliária, resultando em um cenário de degradação urbana. Matta-Clark foi atraído por esses edifícios negligenciados da cidade, não apenas pela questão formal ou poética do seu trabalho, destas fendas, recortes e interseções, mas especialmente pelo contexto político, onde houve investimentos em áreas periurbanas em detrimento da região central, gerando um processo de gentrificação na cidade de Nova York. Matta-Clark usava aquilo, a que ele chamava o ‘período de espera’, em que estes edifícios, habitacionais ou armazéns, que não pertenciam a ninguém ou estavam completamente abandonados, como arte. Era sua forma de preservar esses espaços alternativos, estranhos à capacidade produtiva da cidade.

ConicalIntersect, 1975

A partir da sua formação como arquiteto na década de 1960, na Escola de Arquitetura da Cornell University nos Estados Unidos, Matta-Clark passou a pensar como podia aplicar sua criatividade e seus conhecimentos, que tinha adquirido no curso de arquitetura, aos espaços abandonados, anônimos, sem valor cultural definido pela sociedade, sempre incluindo questões sociais e políticas. Gordon Matta Clark nasceu e cresceu entre artistas. O seu pai foi o pintor surrealista chileno Roberto Matta, a sua mãe, Anne Alpert Clark, também pintora, e o jovem teve como madrinha de batismo a mulher de Marcel Duchamp, o grande patriarca da arte contemporânea.

Em seu trabalho de intervenção urbana, desenvolveu o conceito de “Anarquitetura” (desconstrução de estruturas), propositadamente, a palavra resultava de uma fusão entre ‘anarquia’ e ‘arquitetura’. Há definições do conceito em cartas e em textos, mas ele manteve sempre certa ambiguidade: “Não é arquitetura, mas também não é contra a arquitetura”, revelando, desta forma, questões estéticas, filosóficas e sociais. Esclarece o curador João Ribas que o artista brincava com a linguagem alterando sua estrutura, assim como, alterava a estrutura de um edifício.


Gordon Matta Clark e Jerry Hovagimyan durante a obra de ConicalIntersect, 1975

A série intitulada “BuildingCuts” foi seu trabalho de maior evidência. O conceito de corte desdobra-se nas várias etapas desse trabalho, transformando-se em uma imagem operatória, um ritual de destruição e reconstrução da arquitetura. Verdadeiros cortes em construções abandonadas, mostra mais camadas invisíveis de formação histórica, a partir desses espaços sem memória.

Portanto, podemos partir do princípio que, em sua produção artística, faz-se uma crítica sobre a arquitetura, pautada pela experiência fenomenológica do artista, sua formação e sua interação com o meio social, político, cultural e, portanto, urbano. O gesto do corte, uma prática bastante brutal, tanto na forma material, quanto no contexto social, deixa expostas as feridas da arquitetura, ressalta o caráter destrutivo no processo de transformação urbana.

A efemeridade de seus trabalhos artísticos, uma vez que se tratava de intervenções em construções condenadas, fez com que Matta-Clark se tornasse um fotógrafo inovador e um cinegrafista experimental, para que pudesse documentá-las. Essa curta existência da sua obra era uma contradição, ao próprio significado da perpetuidade da arquitetura. 


A ambiguidade do trabalho de Matta-Clark é motivo de fascínio
 
Os documentos de trabalho, por ele deixados, atuam como memória preservada e fornecem uma pista sobre as maneiras de transformação dos projetos, das escolhas de determinados meios no seu processo e da opção pelo objeto arquitetônico, como lugar de intervenção. A obra de Matta-Clark apresenta uma construção fortemente marcada pelo corte em busca de um silêncio. O corte, como componente da estrutura da arquitetura, tenta demonstrar, através dele, que a construção passa também pela destruição.

O artista tinha uma forte preocupação social em seus trabalhos, que se reflete em uma aproximação entre arte e vida, evidenciada pelos indícios deixados em seus inúmeros projetos, desenhos e esboços. Essa realidade aponta para a tendência de revelar o espaço de suas preocupações de atuação e transformação em espaço de vida, em espaço de coexistência, em espaço de habitação.

Figura mítica da cultura contemporânea, Gordon Matta-Clark, quase não deixou obra para a posteridade. Embora usasse como matéria-prima construções relativamente sólidas, nas quais deixava a sua marca, as esculturas invulgares que resultaram das suas intervenções duraram pouco tempo. Algumas existiram apenas durante minutos e demolidas em seguida. Em 1976, seu irmão gêmeo cometeu suicídio pulando da janela do loft de Matta-Clark no Soho. Dois anos depois, após seu casamento, chegaria a sua vez. Vítima do câncer desapareceu prematuramente, tal como as obras que criou, expondo novamente a fragilidade da arte, dos espaços, do objeto arquitetônico e, por último, a efemeridade da vida.
 

Gordon Matta Clark e Jerry Hovagimyan realizando os cortes de ConicalIntersect, 1975, vídeo realizado por Marc Petitjean, branco e preto

Sobre a autora:

Formada em arquitetura pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, fez intercâmbio na  Ècole nationale supérieure d'architecture de Versailles  – enseav . Especializada em planejamento e gestão de obras pela Escola Politécnica da UFRJ e em história da arte pela Spienza – Università de Roma. Ela ainda é Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (PROARQ) – UFRJ e fez MBA Executivo pelo instituto Coppead. Saiba mais sobre ela: http://www.anualdesign.com.br/brasil/profissionais/julia-abreu/

COMENTÁRIOS

Adriana Correia 18/08/2017 08h21

CURTI MUUUUUUUUUITO! Parabéns Julinha

Gisselly Diaz 06/08/2017 12h45

Muito interessante! Outra maneira de apreciar arte e arquitetura.

João Marcello De Araujo Neto 31/07/2017 17h59

Excelente texto!!

João Marcello De Araujo Neto 31/07/2017 17h56

Excelente texto. Conteúdo super interessante!!

Zilda Abreu 28/07/2017 03h56

Gostei imensamente do conteúdo da revista e dos temas abordados, que falam sobre arquitetura, com vies de artes plásticas. Parabéns aos colaboradores q escrevem com uma linguagem acessível, para um público q aprecia a matéria e não são arquitetos de formação.

Luiz Fernando Janot 27/07/2017 14h14

Trabalho muito oportuno para uma reflexão aprofundada sobre o tema. Parabéns

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